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Ozon mistura melodrama e mistério em "Quando Chega o Outono"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 27 de mar.
  • 4 min de leitura

Cineasta conhecido tanto pela versatilidade, como pela produção prolífica, o francês François Ozon vem desfrutando de uma fase em que retorna às suas origens. Depois de passar quase uma década experimentando outros gêneros, período em que presenteou o mundo com obras notáveis como Frantz (2016), O Amante Duplo (2017) e Graças a Deus (2018), o francês resolveu retomar sua verve cômica no perspicaz O Crime é Meu (2023) e agora resgata o melodrama, outro ponto forte de sua cinematografia. Porém, até quando parece estar trabalhando em território seguro, Ozon se recusa a abraçar o comodismo, como ficou claro em Peter Von Kant (2022), longa-metragem no qual homenageia o ídolo Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), ícone do Novo Cinema Alemão e mestre do... melodrama. Portanto, mesmo que seu mais novo trabalho remeta em alguns momentos ao excepcional Dentro de Casa (2012), ainda meu favorito de sua filmografia, há elementos suficientes para trazer frescor, sem abandonar a sofisticação habitual de sua abordagem.

Exibido sem muito alarde no mesmo Festival de San Sebastián que consagrou Ozon em duas oportunidades (incluindo pelo já citado Dentro de Casa), Quando Chega o Outono acompanha Michelle (Hélène Vincent), uma mulher vivendo o outono de sua vida de forma tranquila na zona rural da Borgonha, região francesa famosa pelas vinícolas. Aposentada, ela passa os dias dedicando-se a prazeres domésticos, como ao desfrutar de uma refeição preparada com ingredientes da própria horta. Apesar de apreciar a solitude, ela não deixa de dividir o tempo com a melhor amiga, Marie-Claude (Josiane Balasko), a quem serve de companhia quando esta resolve encontrar o filho Vincent (Pierre Lottin) na prisão. Prestes a ser libertado, ele jura que se tornou um novo homem, mas isso parece não convencer a mãe. Michelle, aliás, também é mãe, de Valérie (Ludivine Sagnier), que faz questão de visitá-la com o filho, Lucas (Garlan Erlos), durante um feriado. A empolgação é tamanha, que a idosa faz questão de colher cogumelos para preparar uma refeição aos seus raros visitantes, mas o que era para ser uma inocente refeição em família, termina em desastre, com Valérie indo parar no hospital, intoxicada. Sabendo que o neto não gosta de cogumelos, teria Michelle tentado envenenar a própria filha?

Acidental ou não, o episódio resgata rusgas do passado entre as duas, fazendo com que Valérie tome a decisão de ir embora de vez, impedindo Michelle de ver o próprio neto. É claro que ela fica sentida, mas sua tristeza é amenizada com a chegada de Vincent, de quem se aproxima a ponto de oferecer um bico como faz-tudo. Está formada uma teia intrincada de personagens que ficará ainda mais complexa quando uma tragédia, de fato, acontecer.

François Ozon, autor do roteiro ao lado de Philippe Piazzo, seu parceiro habitual, administra com segurança os tropos melodramáticos, percorrendo as relações sinuosas entre os personagens sem jamais revelar o que está realmente em jogo. Essa omissão, que se vale não apenas através de lacunas propositalmente formadas, mas também com dicas fornecidas de soslaio, é o que possibilita a narrativa funcionar também como suspense, gênero do qual o diretor passa muito longe de ser um desconhecido. Ele brinca com as expectativas do espectador ao apresentar a história insinuando se tratar de um típico feel good movie, com personagens pacatas executando tarefas prosaicas num cenário bucólico e aparentemente imaculado. E se eventualmente ele entra no território do thriller, o faz com a gentileza e a paciência dignas de um virtuoso.

Assim, ele pode abrir espaço para teorias e interpretações sem deixar de desenvolver o mote da narrativa, que é a relação direta entre passado e futuro. Pois se há um conflito presente em absolutamente todos os relacionamentos do filme, é justamente aquele que nasce a partir de acontecimentos distantes, influenciando diretamente os rumos tomados pelos personagens. Ozon se aprofunda nessa questão trazendo à tona elementos recorrentes de sua filmografia, como moralidade, legado, culpa e, claro, o laço inquebrável entre duas mulheres, alicerce narrativo, por exemplo, do recente O Crime É Meu (2023). Nesse ponto, Hélène Vincent e Josiane Balasko são fundamentais para manter a engrenagem funcionando.

Vincent, de 81 anos, é hábil ao transmitir doçura e vulnerabilidade na dose certa. Da mesma forma com que nos atrai pela personalidade afável de Michelle, sugere que sua fragilidade pode não ser apenas física. E mesmo que Ozon ajude a minar a lucidez da mulher com intervenções “fantasmagóricas” (excedendo-se nos minutos finais, vale ressaltar), são da veterana os créditos por estimular uma torcida desconfiada por parte do espectador. Embora Balasko não fique atrás, inclusive carregando o peso da sequência mais tocante da produção, é Pierre Lottin quem se sai melhor, cumprindo com louvor a função de personificar o elemento disruptivo da trama. Contrastando o sorriso cínico e os maneirismos controlados com atitudes sempre gentis, Lottin compõe Vincent como um homem em quem não devemos confiar plenamente. É curioso, no entanto, que mesmo assim apreciamos sua presença, especialmente na segunda metade da projeção, quando passa a ser mais requisitado. Aliás, é ele quem recebe a tarefa de amarrar o discurso do filme, protagonizando sequências que trazem uma conclusão satisfatória (principalmente para Michelle) ao argumento sobre a relação entre passado e futuro, criando, por tabela, uma expectativa positiva quanto ao desfecho da narrativa.

Se em Peter Von Kant (2022), Ozon homenageou Fassbinder, dessa vez é de Claude Chabrol a influência mais sentida e que ficaria orgulhoso com esta obra complexa, envolvente e deliciosamente misteriosa dirigida com a competência habitual pelo maior workaholic do cinema europeu.


NOTA 7,5


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