Oscar 2025 | Palpites para os vencedores
- Guilherme Cândido
- 28 de fev.
- 9 min de leitura

Saudações, leitores!
Que essa temporada de premiações está sendo diferente, já sabemos. A presença não apenas de um filme, mas também de um brasileiro entre os indicados ao Oscar torna tudo especial, mas não se engane, esse ano é incomum até para quem não está torcendo por Ainda Estou Aqui e Fernanda Torres.
Tudo começou com um Globo de Ouro estranhamente influente, alçando Demi Moore e Torres ao favoritismo, posição anteriormente ocupada por Mikey Madison, líder de prêmios até então. Há tempos que a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (que oferece os Golden Globes) caiu em desgraça, após uma série de escândalos, especialmente (mas não só) envolvendo corrupção virem à tona e descredibilizarem a premiação.
Se a categoria Melhor Filme Dramático segue regular ao se distanciar do Oscar (cujo vencedor geralmente não coincide com a escolha dos correspondentes de Los Angeles), a corrida para Melhor Atriz tornou-se interessante por revelar Fernanda Torres à Indústria. A campanha irretocável de Ainda Estou Aqui já estava se encarregando de colocar a carioca entre as possíveis indicadas, mas o Globo de Ouro serviu para fazer o mundo se perguntar: quem é Fernanda Torres? O resto, sua própria performance fala por si.
E cá estamos nós, às vésperas da cerimônia que mais uma vez acontecerá no tradicional Dolby Theatre em Los Angeles e será transmitido ao Brasil através da TNT pela TV por Assinatura e do Max no streaming, na íntegra. Para aqueles interessados somente nas categorias disputadas por Ainda Estou Aqui, a Rede Globo promete se dedicar a levar flashes ao vivo, interrompendo a tradicional transmissão dos desfiles de escolas de samba para que todos tenham a chance de torcer pela primeira vitória do Brasil no Oscar.
Hoje, a estatueta tende a passar muito longe das mãos de quem realmente merece. E embora esporadicamente abra-se espaço para exceções (vide Parasita), usualmente ganha quem faz a melhor campanha. Isso mesmo, o Oscar é, sobretudo, uma eleição repleta de glamour. O volume de dinheiro gasto em eventos é proporcional às chances de vitória no domingo. É por isso, por exemplo, que Emilia Pérez fez história ao abocanhar 13 indicações, com a gigante Netflix por trás, enquanto Ainda Estou Aqui, com um orçamento substancialmente inferior, apareça em apenas três categorias. Também há aberrações difíceis de explicar, como a presença de James Mangold entre os cinco melhores diretores do ano pelo convencional Um Completo Desconhecido e a ausência de Denis Villeneuve pelo espetacular Duna: Parte Dois produção da toda poderosa Warner.
Todavia, não estamos aqui para debater quem deveria ou não ter entrado na lista final de nomeações (se mesmo assim você quiser, dê uma espiadinha no meu artigo sobre os indicados, mas não deixe de voltar aqui!), mas sim sobre o destino do famoso careca dourado batizado em homenagem ao tio de alguém que julgava a estatueta semelhante.
Prepare-se para uma noite de surpresas. Como disse no início, é um ano atípico, maluco mesmo. Tem filme caindo em desgraça, atriz embolando a disputa, sindicatos dividindo prêmios e falta de sintonia entre precursores. Os bolões pegarão fogo e quem vencê-los terá o meu respeito.
Sem mais delongas, vamos aos palpites!

MELHOR FILME
“Anora”
Foi o primeiro a ocupar o topo dos cotados após vencer a Palma de Ouro em Cannes, mas viu o primeiro lugar trocar de mãos durante a temporada. “Emilia Pérez” e suas mais de uma dezena de indicações, o sucesso de público e crítica representado por “Wicked”, o vencedor do Globo de Ouro, “O Brutalista”, e até “Um Completo Desconhecido” e suas surpreendentes oito nomeações chegaram a experimentar o doce sabor do favoritismo.
Mas Produtores e Diretores, por meio de seus respectivos sindicatos, resolveram dar um basta nessa dança das cadeiras e ambos premiaram o longa-metragem de Sean Baker. É verdade que o SAG (sindicato dos atores) até tentou provocar alguma emoção ao, merecidamente, escolher o elenco de “Conclave” como o melhor do ano, mas “Anora” segue firme no caminho que percorre desde o início da temporada e deverá concluir sua trajetória vencendo em ao menos duas das seis categorias nas quais aparece indicado. O que por si só já será uma tremenda derrota para “Emilia Pérez”, que foi de escolha segura a presença inconveniente em poucas semanas.
Produção latina mais vezes indicada ao Oscar e com chances razoáveis de tornar Karla Sofía Gascón a primeira mulher trans a levar o prêmio de Melhor Atriz, “Emília Pérez” simplesmente derreteu a ponto de correr o risco de sair zerado no domingo (ironicamente quebrando outro recorde, mas negativo). Gascón teve tweets antigos resgatados destilando preconceito e intolerância, mas o que sepultou suas chances foi a inacreditável postura contrária às atitudes inclusivas da Academia. Sobrou até para a equipe de “Ainda Estou Aqui”, acusada de alimentar o “hate” que recaiu sobre seu filme. Como se isso não bastasse, o diretor Jacques Audiard fez questão de jogar lenha na fogueira, queimando a espanhola, mas se chamuscando no processo, ao rebater de forma atabalhoada as críticas sofridas por “Emilia Pérez”, especialmente em relação à representação dos mexicanos e da transexualidade.
Beneficiando-se da desgraça alheia, no entanto, não subestime o fator “Parasita” que pode impulsionar “Ainda Estou Aqui” para uma vitória que seria ainda mais impactante do que a do longa coreano. Afinal, o filme de Walter Salles, ainda que ausente de categorias-chave, como Direção, Roteiro e Montagem, vem conquistando o mundo e conta com o apoio de nomes graúdos da indústria, como Martin Scorsese, Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón, além dos votantes internacionais. Uma terceira possibilidade que não me desagradaria (mais: teria meu voto), seria “O Brutalista” quebrar a dessincronia entre Oscar e Globo de Ouro.

MELHOR DIREÇÃO
Sean Baker por “Anora”
Como já adiantado, Baker venceu o DGA, honraria concedida pelo sindicato dos diretores e, por isso, sua derrota seria não menos do que estarrecedora. Audiard está fora e Fargeat apenas ocupa a protocolar “vaga estrangeira”. Brady Corbet é o único que aparece no retrovisor de Baker, embora bem distante. Corbet, inclusive, seria a minha escolha.

MELHOR ATOR
Adrien Brody por “O Brutalista”
Outra polarização a ser resolvida no domingo é Adrien Brody Vs. Thimothée Chalamet, uma disputa repleta de contrastes. Brody já é um vencedor do Oscar de Melhor Ator (por “O Pianista”, em 2003), mas jamais experimentou o sucesso do qual Chalamet pode se orgulhar hoje. Apesar de jovem, ele está em sua segunda indicação (a primeira foi por “Me Chame Pelo Seu Nome”, em 2017), que poderia muito bem ser a terceira, caso sua sensível e multifacetada performance em “Querido Menino” não fosse esnobada.
Pelo terceiro ano, está em duas produções indicadas a Melhor Filme e é o astro de Duna, cujo segundo capítulo comprovou-se um enorme sucesso de público e crítica, além de estar cotado em várias categorias técnicas desta edição. É quase unanimidade entre os jovens e tem feito opções cada vez mais corajosas na carreira, algo refletido em seu corajoso discurso ao vencer o SAG, bradando sobre o desejo de estar entre os melhores. O momento, como é possível perceber, é todo de Chalamet, mas as malditas estatísticas vão aparecer mais uma vez para embolar a disputa. Curiosamente, se Chalamet for anunciado no domingo, se tornará o mais jovem vencedor do Oscar de Melhor Ator, desbancando ninguém menos do que Adrien Brody, cujo recorde dura 22 anos.
Uma vitória no SAG costuma se transformar em favoritismo absoluto no Oscar, pois os votantes são quase os mesmos. Em quase todas as categorias (de atuação, obviamente), SAG e Oscar têm andado de mãos dadas. Sabe a única que foge à regra? Pois é, Melhor Ator! O próprio Brody serve de exemplo para ilustrar essa falta de sintonia. Para quem não lembra, ele levou a estatueta mesmo perdendo o prêmio do sindicato para Daniel Day-Lewis (o inesquecível Açougueiro de “Gangues de Nova York”). Este ano o cenário se inverteu, pois Adrien venceu todos os precursores... menos o SAG, numa situação vivenciada por Emma Stone (“Pobres Criaturas) ano passado e por Anthony Hopkins (“Meu Pai”) em 2021, só para ficar entre os exemplos mais recentes.
A vitória de Chalamet, no entanto, pode ter vindo tarde demais, pois aconteceu após o fim da votação do Oscar, algo incomum, mas justificado pelos adiamentos provocados pelos incêndios que assolaram Los Angeles. Caso tivesse vencido também o SAG, o anúncio de domingo seria uma mera formalidade. Felizmente, o intérprete de Bob Dylan em “Um Completo Desconhecido” entrou em cena para mostrar que ainda há disputa, mesmo que o favoritismo permaneça com o arquiteto judeu de “O Brutalista”, minha atuação preferida entre os indicados.

MELHOR ATRIZ
Fernanda Torres por “Ainda Estou Aqui”
Pivô da derrocada de Emilia Pérez, Karla Sofía Gascón é a única sem chance de vitória aqui e Demi Moore, teoricamente, a favorita. Apesar de Mikey Madison ter vencido o maior número de prêmios, os precursores foram varridos por Moore e justamente contra ela. Logo, é inquestionável o fato de que Moore está em melhor posição do que Madison para levar a estatueta. Melhor Atriz, por outro lado, é a categoria mais enigmática da noite e o motivo tem nome e sobrenome: Fernanda Torres.
Demi Moore venceu os precursores, mas sem a presença de Torres. A norte-americana tem jogado sem sua oponente mais forte. É verdade que os prêmios acumulados significam tempo a frente das câmeras e um aperfeiçoamento do discurso, lapidando a narrativa “atriz de filme-pipoca”, algo que Torres, ausente, não teve. No Globo de Ouro, ambas venceram, pois seus filmes estavam em categorias diferentes, então, como medir favoritismo se o Oscar será o primeiro e único embate entre as duas? Lembrando que Fernanda não é membro do sindicato dos atores, portanto não poderia ser indicada ao prêmio vencido por Moore.
A estrela de Ghost: Do Outro Lado da Vida tem uma excelente história de superação, mas a Vani de Os Normais, caso vença, quebrará não só uma escrita, como reparará um erro histórico. Afinal, sua mãe, a honorável Fernanda Montenegro, perdeu o Oscar há 26 anos para Gwyneth Paltrow num escândalo comprovado envolvendo o figurão Harvey Weinstein, preso por estupro. Torcida à parte, trata-se de uma narrativa difícil de resistir, não é verdade? É bom estar com o coração em dia, pois a votação certamente foi apertada.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kieran Culkin por “A Verdadeira Dor”
A maior barbada desta 97ª edição, tanto que provavelmente será a primeira categoria anunciada no domingo. Os últimos anos têm sido excelentes para Kieran Culkin, multipremiado pela série Succession e que rouba para si o filme escrito, dirigido e protagonizado por Jesse Eisenberg. Nem mesmo a atuação irrepreensível de Guy Pearce, do meu favorito “O Brutalista”, faz frente ao trabalho de Culkin, virtualmente vencedor após levar todos os principais precursores.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Zöe Saldaña por “Emilia Pérez”
Assim, como Culkin, venceu em praticamente todas as premiações consideradas “termômetros”, o que, numa situação normal, seria o suficiente para cravar a eterna Neytiri como a mais nova vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Porém, ela pode ser afetada pelo furacão de polêmicas enfrentado por seu filme, “Emilia Pérez” e ver a estatueta cair no colo ou da novata Ariana Grande, por “Wicked” ou no da veterana Isabella Rossellini pela sua participação magistral em “Conclave”. Penso que Saldaña cambaleará, mas não cairá. Se cair, estarei na torcida por Monica Barbaro, a Joan Baez de “Um Completo Desconhecido”.

MELHOR FILME INTERNACIONAL
“Ainda Estou Aqui”
Esta é a categoria que mostrará o estrago sofrido pela campanha de “Emilia Pérez” e eu aposto que será grande o bastante para permitir que o fenômeno estrelado por Fernanda Torres sobressaia e se torne o primeiro filme brasileiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional. Como apenas os dois foram também indicados ao maior prêmio da noite, pressupõe-se que não há concorrentes.
Outros palpites em ordem de probabilidade de vitória (meus favoritos estão em azul):
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
“Anora”
“A Verdadeira Dor”
“A Substância”
“O Brutalista”
“Setembro 5”
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
“Conclave”
“O Reformatório Nickel”
“Um Completo Desconhecido”
“Sing Sing”
“Emilia Pérez”
MELHOR FILME (DOCUMENTÁRIO)
“Sem Chão” (No Other Land)
“Porcelain War”
“Trilha Sonora Para um Golpe de Estado”
“Quatro Paredes” (Black Box Diaries)
“Sugarcane: Sombras de Um Colégio Interno”
MELHOR FILME (ANIMAÇÃO)
"Flow"
“Robô Selvagem”
“Divertida Mente 2”
“Memórias de um Caracol”
“Wallace & Gromit: Avengança”
MELHOR CURTA-METRAGEM (LIVE-ACTION)
“O Homem Que Não Se Calou”
“A Lien”
“Anuja”
“I’m Not a Robot”
“The Last Ranger”
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
“Incident”
“I am Ready, Warden”
“A Única Mulher na Orquestra”
“Instruments of a Beating Heart”
“Death By Numbers”
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
“Wander to Wonder”
“Beautiful Men”
“In The Shadow of the Cypress”
“Yuck!”
“Magic Candies”
MELHOR MONTAGEM
"Conclave”
“Anora”
“O Brutalista”
“Wicked”
“Emilia Pérez”
MELHOR FOTOGRAFIA
“O Brutalista”
“Maria Callas”
“Nosferatu”
“Duna: Parte Dois”
“Emilia Pérez”
MELHOR SOM
“Um Completo Desconhecido”
“Duna: Parte Dois”
“Wicked”
“Robô Selvagem”
“Emilia Pérez”
MELHOR TRILHA SONORA
“O Brutalista”
“Conclave”
“Emilia Pérez”
“Robô Selvagem”
“Wicked”
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
El Mal – “Emilia Pérez”
The Journey – “Batalhão 6888”
Mi Camino – “Emilia Pérez”
Never Too Late – “Elton John: Never Too Late”
Like a Bird – “Sing Sing”
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
“A Substância”
“Um Homem Diferente”
“Nosferatu”
“Emilia Pérez”
“Wicked”
MELHOR FIGURINO
“Wicked”
“Conclave”
“Nosferatu”
“Um Completo Desconhecido”
“Gladiador II”
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
“Wicked”
“Conclave”
“Nosferatu”
“O Brutalista”
“Duna: Parte Dois”
MELHORES EFEITOS VISUAIS
“Duna: Parte Dois”
“Better Man: A História de Robbie Williams”
“Planeta dos Macacos: O Reinado”
“Wicked”
“Alien: Romulus”
O Oscar 2025 acontecerá no próximo domingo (2) às 21:00 (horário de Brasília) e terá transmissão pela TNT (TV por Assinatura), pela Rede Globo (TV Aberta) e pelo Max (Streaming).
Críticas dos indicados ao Oscar: