Oscar 2025 | Cerimônia consagra o Brasil e confirma expectativa de surpresas
- Guilherme Cândido
- 3 de mar.
- 5 min de leitura

Nem o excesso de intervalos comerciais, com direito a exaustivas repetições de peças publicitárias praticamente ao final de cada categoria transmitida (Ronaldinho Gaúcho demorará a sair da mente de quem assistiu), tirou o brilho de uma cerimônia consciente da alta probabilidade de surpresas. Tanto que a primeira categoria anunciada foi justamente a mais previsível da noite, tirando a barbada da frente para se concentrar na alimentação da expectativa do público em geral e da ansiedade entre os brasileiros. Em mais um discurso espirituoso (só que mais longo) nessa temporada de premiações, Kieran Culkin levou a merecida estatueta pela dramédia A Verdadeira Dor. Era o início de uma longa noite, que apesar de não seguir a tradição de exibir performances ao vivo das canções indicadas, optou por trazer vários outros números musicais, trocando seis por meia dúzia. Nesse ponto, os destaques ficaram por conta da homenagem ao legado de 007 (leia aqui as críticas de todos os filmes da franquia), quase um lamento pela recente aquisição de seus direitos criativos pela Amazon/MGM Studios e uma divertida apresentação do anfitrião Conan O’Brien traçando um paralelo entre o tempo determinado para os discursos e a duração total da própria cerimônia.

Veterano da Televisão estadunidense, O’Brien assumiu a condução do Oscar pela primeira vez, substituindo o desgastado Jimmy Kimmel. Claramente entusiasmado com a oportunidade, compensou a irregularidade de suas piadas com uma energia frenética, exibindo uma presença de palco infinitamente superior ao do seu antecessor. Ele cantou, dançou e até arriscou algumas piadas mais ácidas (algumas de cunho político, corajosamente fugindo de seu estilo), mas seus melhores momentos vieram de comentários autodepreciativos, novamente distanciando-se do arrogante Kimmel de 2024.

No entanto, as piadas constrangedoramente óbvias foram herdadas, embora em menor quantidade, felizmente. No geral, pode-se dizer que foi uma boa estreia de Conan O’Brien, especialmente pelo frescor e pela intensidade, que faltaram no ano anterior.
Obviamente cientes do engajamento brasileiro e da disputa acirradíssima entre as indicadas, a produção se encarregou de empurrar o prêmio de Melhor Atriz para o final, sendo a última a ser anunciada antes da categoria principal. O suspense se justificava, pois seria a primeira vez que nossa Fernanda Torres finalmente enfrentaria as favoritas Mikey Madison e Demi Moore. As duas últimas monopolizaram os precursores, que não contaram com a presença de Torres. Como então medir sua popularidade? As possibilidades eram muitas (divisão de votos, comunidade internacional prevalecendo, poder do protecionismo hollywoodiano...), mas deixemos essa parte para o final.

Pois antes disso, vimos o mediano Um Completo Desconhecido sair de mãos vazias, enquanto Duna: Parte Dois e Wicked travaram um verdadeiro duelo nos quesitos técnicos. Ambos saíram com dois Oscars, mas foi o musical-sensação quem ficou com um sabor amargo por ter começado a cerimônia com 10 indicações, empatado com O Brutalista.

O, literalmente, grande filme de Brady Corbet saiu-se vencedor em três ocasiões, com direito à esperada consagração de seu protagonista. Mesmo tendo perdido o SAG, importantíssimo termômetro para as categorias de atuação, Adrien Brody deixou o promissor Timothée Chalamet para trás e ficou com a estatueta. Seu discurso porém, saltou da emoção ao comemorar um retorno ao palco do Dolby Theater, para flertar com a arrogância ao recusar-se a sair do palco quando a famigerada música de fundo começou a ecoar para interrompê-lo (“Por favor, abaixe a música. Já fiz isso antes, não é minha primeira vez aqui”).

Postura oposta à do brasileiro Walter Salles, que educadamente se despediu ao ouvir os primeiros acordes da orquestra presente no teatro, desta vez em posição de destaque ao invés do subsolo onde habitualmente se posicionava. Escrevi sobre a importância da vitória de Ainda Estou Aqui num artigo separado (leia aqui), então me concentrarei em destacar a tradicional humildade nas palavras de Salles, feliz e orgulhoso ao dedicar o prêmio a Eunice Paiva, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. Nada de choro, política ou ufanismo, apenas a boa e velha elegância peculiar ao diretor do primeiro filme brasileiro a conquistar o Oscar. O derretimento sem precedentes da campanha de Emilia Pérez, claro, foi fundamental, principalmente por coincidir com a ascensão de nosso longa-metragem.

De líder de indicações (13) e favorito absoluto à pária, o musical francês chegou perto de sair de mãos vazias, ganhando apenas onde seu favoritismo era inabalável. Caso de Zoe Saldaña, a eterna Neytiri de Avatar, que apesar dos excessos em sua volúpia pela estatueta, passou incólume inclusive à nuvem negra que pairou sobre seu filme, desencadeado por tweets de sua colega, a espanhola Karla Sofía Gascón (alvo de uma ótima piada de Conan O’Brien, a propósito).

Injusto e tradicionalmente esquecido, o trio de categorias dedicadas a curtas-metragens foi justamente o que trouxe mais surpresas. A política ficou de lado, derrubando o favoritismo de pautas como imigração e violência policial para o acolhimento de histórias lúdicas como a do excelente In The Shadow of The Cypress em Animação e o medíocre I’m Not a Robot em Live Action. Em Documentário, ganhou o bom A Única Mulher na Orquestra, sobre a pioneira Orin O’Brien (sem relação com Conan), chocando os presentes.

Em contrapartida, surpresa zero nas duas principais, com Anora confirmando o favoritismo recuperado no último mês. Vencedor da Palma de Ouro, o longa iniciou a temporada em baixa, vendo filmes como O Brutalista e Emilia Pérez roubarem seu protagonismo. Vitórias em dois precursores cruciais (PGA e DGA) recolocaram Sean Baker em posição para fazer seus belíssimos e importantíssimos discursos em prol do Cinema e da produção independente, mas nem ele devia imaginar que a noite de 2 Março de 2025 o transformaria na primeira pessoa a ganhar quatro Oscars pelo mesmo filme, desbancando grandes nomes como James Cameron e Walt Disney (este também levou quatro prêmios, mas por produções diferentes). Um exagero difícil de engolir, ainda mais com esse contestável e hiperbólico amor da Academia pelo superestimado Anora preterindo Fernanda Torres.

A brasileira, que muitos julgavam brigar apenas com Demi Moore (vencedora de quase todos os precursores) após o Globo de Ouro, viu Mikey Madison, líder de prêmios na temporada, ressurgir na Hora H e ficar com o Oscar. Contrariando o SAG (termômetro de atuações) e ratificando o recente histórico de jovens talentos triunfando sobre estrelas consagradas (quem lembra de Brie Larson, Jennifer Lawrence e Emma Stone?), a trajetória Madison foi a mesma do filme que protagoniza, confirmando o favoritismo perdido durante a campanha.

Dizer que Torres estava à frente de suas concorrentes é chover no molhado. O tour de force da brasileira combinava-se a uma possível reparação histórica do erro cometido com sua mãe, também indicada ao Oscar 26 anos atrás. E se a brasileira pode se considerar uma vitoriosa não apenas pela nomeação, mas pelo acirramento da disputa (cujo triunfo chegou a ser encarado como impossível), é Demi Moore quem sai como a grande derrotada. Com uma campanha inteligente, mas agressiva, a veterana cumpriu quase todos os pré-requisitos para abocanhar o prêmio, ficando na lona após ter sua vitória dada como certa pelos principais veículos de comunicação hollywoodianos.

Como já havia apontado em meu texto de previsões, o Oscar 2025 foi, de fato, um dos mais divertidos e imprevisíveis dos últimos anos, destacando-se também pela qualidade das produções indicadas. Não foi a melhor safra, é verdade, mas aberrações passaram longe dessa vez. E se fiquei triste pela derrota da animação Robô Selvagem, ao menos não me indignei, já que o vencedor Flow, além de ótimo, tornou-se o primeiro filme de seu país (Letônia) a ganhar um Oscar, espelhando o que vivemos com Ainda Estou Aqui e tornando a empatia imediata, algo cujo despertar, por si só, já é o bastante para considerar esta cerimônia uma das melhores dos últimos anos.