top of page

Jack Quaid brilha, mas "Novocaine: À Prova de Dor" não faz jus à premissa

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 28 de mar.
  • 3 min de leitura

Nathan Caine (Jack Quaid) é uma pessoa comum, exceto pelo fato de que é incapaz de sentir dor. Quem vê esse sujeito, um mero gerente assistente de um banco pequeno, gaguejando ao falar com a bela Sherry (Amber Midthunder, de O Predador - A Caça), mal imagina se tratar do portador de uma doença raríssima que afeta seus nervos, fazendo-o imune a dor, mas não ao dano. Poderia ser a descrição de um super-herói, mas felizmente o protagonista de Novocaine: À Prova de Dor só quer encontrar alguém capaz de dar sentido à sua vida. Tocante, por outro lado, nas mãos de Dan Berk e Robert Olsen, dupla responsável pelo bom Vilões, a condição de Caine transforma-se no combustível de uma narrativa que segue de perto a loucura de Adrenalina (2007), o humor à base de gore de Deadpool (2015) e a ação à la John Wick. Infelizmente, porém, Berk e Olsen jamais alcançam suas inspirações.

Tentativas não faltam e elas são quase boas o bastante para permitir que ignoremos as irregularidades do roteiro assinado por Lars Jacobson (Dia dos Mortos). Num projeto como esse, a suspensão da descrença é quase um pré-requisito ao comprar o ingresso, mas falta criatividade na hora de elaborar diálogos e nem me refiro às óbvias frases de efeito (“sinta isso, seu desgraçado!”). Nada justifica o volume de exposições gratuitas, com personagens trocando informações a fim de manter o espectador a par da nada complexa trama (“não acredito que já faz um ano que nos encontramos”). Há elementos sugerindo um discurso, como ao pintar um vilão como um sobrevivencialista fã de armas ou a possibilidade de assumir uma nova identidade no ambiente virtual, mas nada passa da superfície, culminando ora em frágeis contextualizações, ora em piadas esquecíveis. Nem a presença de uma suástica é suficiente para estimular um desenvolvimento por parte dos roteiristas, mas nada supera a presença injustificável de uma dupla de policiais, absolutamente irrelevantes para a progressão da narrativa. Aliás, verdade seja dita, tais personagens aparecem apenas para tomarem decisões absurdas, reforçando a falta de verossimilhança. Ao menos, Novocaine não tenta esconder suas influências, por mais óbvias que sejam, especialmente Esqueceram de Mim (1990), matéria-prima de uma longa-sequência que apesar de não fazer sentido algum, é bem aproveitada por Jack Quaid.

Único fruto do casamento entre os astros Dennis Quaid e Meg Ryan, o ator de 32 anos vem tentando se enturmar em Hollywood, seja através da televisão (com a bem-sucedida série The Boys) ou em papéis coadjuvantes em franquias consagradas como Jogos Vorazes e Pânico. Esse ano, porém, parece ser um divisor de águas em sua carreira, tendo estrelado o bom Acompanhante Perfeita e agora protagonizando sua primeira grande aventura. E ele não faz feio, pelo contrário, distanciando-se do tipo nerd frágil ao qual limitava-se e abraçando uma composição carismática e com força o bastante para carregar o filme. Ele é inteligente, por exemplo, ao ilustrar a indiferença com que Nathan encara as situações mais extremas. Uma flechada, um tiro e o procedimento de retirar um projétil não passam de banalidades aos olhos do herói e sem precisar recorrer ao cinismo, tão comum nesse tipo de narrativa.

Já tecnicamente, a produção vai ainda melhor, merecendo elogios não apenas pelas coreografias, que aproveitam o máximo de cada ambiente no melhor estilo Jackie Chan, mas também pelos efeitos práticos que são empregados e fazem valer os 18 anos da classificação indicativa. Assim como em Deadpool (2015), ossos são quebrados e litros de sangue jorram por puro entretenimento, por mais sombrio que possa parecer para espectadores menos receptivos ao gore. Algumas perguntas, todavia, demoram demais para serem respondidas (ele não sente dor, ok, mas e quanto aos danos físicos? E seu metabolismo?). Por falar em dúvida, quando exatamente o vilão interpretado por Ray Nicholson (filho de Jack Nicholson) descobre que Nathan não sente dor? O que gera mais estranheza é que perguntas como essas surgem e são respondidas com objetividade e irreverência no primeiro ato, o melhor, por apresentar as inúmeras possibilidades da história. Depois disso, o foco muda, a criatividade some e as derivações aparecem.

Tropeçando também no uso excessivo da trilha sonora (repare nos vários crescentes), Novocaine: À Prova de Dor, parte de uma premissa promissora e até atinge bons momentos graças ao comprometimento de seu protagonista, mas o desenvolvimento derivativo enfraquece o impacto de um projeto que ao menos não foi desovado num streaming e nem desperdiçado num “universo cinematográfico”.


NOTA 5,5

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0